Santa Maria do Castelo: A guardiã da memória de Tavira
Santa Maria do Castelo: A guardiã da memória de Tavira
Erguida no coração da cidade alta de Tavira, a Igreja de Santa Maria do Castelo impõe-se com uma sobriedade que atravessa séculos de história e de fé. Dominando a paisagem junto às muralhas do antigo castelo, este monumento nacional é mais do que um templo: é um testemunho da identidade da cidade e da persistência do património religioso português.
A sua origem remonta a 1242, quando D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago, conquistou Tavira aos mouros e mandou edificar a igreja sobre uma antiga mesquita. Desde então, a Igreja de Santa Maria do Castelo tem sido um marco na vida espiritual e cultural da comunidade. Foi neste lugar que o próprio D. Paio Peres Correia quis residir para a eternidade, desejo cumprido após a sua morte em 1275. O seu túmulo, assinalado por uma lápide imponente, encontra-se na capela-mor, evocando a memória do cavaleiro que foi fundamental na Reconquista do Algarve.
Arquitetonicamente, a igreja apresenta uma planta em cruz latina, com três naves, transepto saliente e cabeceira tripartida. A fachada, com influência neoclássica, revela um portal gótico de quatro arquivos altos decorados com capitéis vegetalistas, que transporta o visitante para a riqueza simbólica da Idade Média. No interior, as abóbadas assentes em pilares robustos e a luz que atravessa o clerestório compõem um espaço de recolhimento. Diversas capelas, como a do Santíssimo, revestida de azulejos azuis e brancos, e a do Senhor dos Passos, com a sua abóbada de aranhiço, enriquecem o conjunto.
A passagem dos séculos foi marcada por sucessivas intervenções. Em 1480, uma inscrição na torre sineira assinala obras desse período. No século XVII, o lavatório da sacristia foi datado de 1645, e em 1748 foi edificado a capela do Santíssimo. A grande descoberta deu-se após o terramoto de 1755, que deixou o edifício bastante arruinado. Sob a orientação do Bispo D. Francisco Gomes do Avelar, a igreja foi reedificada, preservando os seus traços históricos.
Nos tempos mais recentes, a preservação do monumento manteve-se uma prioridade. Em 2019, a Câmara Municipal de Tavira lançou uma empreitada de quase 300 mil euros para conservação e restauro de talha dourada, azulejaria, escultura, pintura e elementos pétreos. Estes esforços visam garantir que este património continue acessível e digno das gerações vindouras.
Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Igreja de Santa Maria do Castelo permanece como um dos mais notáveis exemplos de cruzamentos de estilos gótico e barroco no sul de Portugal. Mais do que um edifício, é uma cápsula do tempo, onde a arte, a história e a fé se entrelaçam, guardando a memória viva de Tavira.
Por Albino Monteiro