Igreja da Graça: A Renascença que Resiste no Coração de Évora
Igreja da Graça: A Renascença que Resiste no Coração de Évora
Erguida no Largo da Graça, em pleno centro histórico de Évora, a Igreja da Graça permanece como um dos testemunhos mais marcantes da introdução da arquitetura renascentista em Portugal. Projetada por Miguel de Arruda e Nicolau de Chanterene, este monumento singular, que começou a ganhar forma em 1524, foi o primeiro edifício da cidade a incorporar plenamente as linhas do Renascimento. Em 1910, o reconhecimento do seu valor levou à sua classificação como Monumento Nacional, contribuindo, mais tarde, para que Évora fosse inscrita na lista de Património Mundial da UNESCO.
Antes do atual convento, já em 1511, existia no mesmo local um convento pertencente à Ordem dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho. Foi sobre essas fundações que o novo edifício se ergueu, acolhendo a comunidade de frades agostinianos, com o patrocínio de D. João III e do seu primo, o bispo D. Afonso de Portugal.
Construída em granito local, a Igreja da Graça revela, na sua planta longitudinal e ligeiramente irregular, todos os elementos do classicismo renascentista. O interior, composto por uma nave única com quatro tramos, é iluminado por janelas em mármore de Estremoz, especialmente evidentes na zona do altar-mor. No exterior, o claustro, a fachada e os relevos da capela-mor causaram, à época, grande admiração pela ousadia do seu desenho, incomum na arquitetura portuguesa do século XVI.
A frontaria, claramente marcada pela influência italiana, foi construída durante o reinado de D. João III. O corpo da fachada divide-se em dois registos, com o nível inferior composto por um nártex sustentado por quatro colunas toscanas, ladeado por mais duas colunas idênticas. O registo superior exibe um frontão triangular e um grande janelão flanqueado por colunas jónicas. O conjunto é coroado por um óculo, ladeado por dois anjos esculpidos e uma cruz de pedra.
Contudo, o que mais chama a atenção de quem passa são as quatro figuras de granito — os famosos “Meninos da Graça”. Sentados e segurando lanças de ferro, estes atlantes repousam sobre globos de fogo que simbolizam as quatro partes do mundo por onde os portugueses viajaram. Populares entre os eborenses, estas esculturas, atribuídas a Nicolau de Chanterene, são envoltas em lendas e crónicas, que os associam aos primeiros mártires da Inquisição em Évora. Não é incomum ouvir um habitante da cidade indicar o caminho para a “Igreja dos Meninos da Graça” quando alguém pergunta direções.
O campanário destaca-se no conjunto arquitetónico, com três olhais redondos, rematado por um frontão triangular e ladeado por pedestais encimados por esferas.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento foi convertido em quartel, o que deu início a um longo período de decadência. O seu espólio artístico foi parcialmente disperso: vários altares, imagens e sinos foram transferidos para a Igreja de São Francisco, enquanto a Capela da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos foi deslocada para a Igreja do Espírito Santo. A situação agravou-se em 1884, quando a abóbada da igreja desabou, levando consigo os valiosos painéis de azulejos que narravam episódios da vida de Santo Agostinho.
Só na segunda metade do século XX é que a Igreja da Graça viria a ser alvo de um restauro profundo, que lhe devolveu a traça renascentista que ainda hoje encanta visitantes e estudiosos. Atualmente, o espaço serve de Messe de Oficiais da guarnição de Évora, enquanto a igreja funciona como Capelania da Região Militar Sul — uma nova função para um velho templo que continua, séculos volvidos, a testemunhar a riqueza histórica e artística da cidade.
Por Albino Monteiro
