Entre muralhas e história: a Fortaleza de São Filipe, sentinela de Setúbal

Entre muralhas e história: a Fortaleza de São Filipe, sentinela de Setúbal

Erguida sobre as encostas que abraçam a cidade de Setúbal e vigiando atentamente a foz do rio Sado, a imponente Fortaleza de São Filipe mantém-se como um dos mais emblemáticos símbolos da herança histórica e cultural da costa portuguesa. Com raízes que remontam ao século XVII, este bastião de pedra não foi apenas um escudo contra invasores — tornou-se um verdadeiro marco identitário da região.

Uma fortaleza nascida da União Ibérica

A génese da Fortaleza de São Filipe cruza-se com um dos períodos mais conturbados da história de Portugal: a União Ibérica (1580–1640). Foi em 1582 que Filipe I de Portugal (também Filipe II de Espanha) ordenou a construção desta estrutura, com o propósito de reforçar a defesa da costa portuguesa contra as ameaças constantes de piratas e corsários, e ao mesmo tempo afirmar a autoridade da coroa filipina sobre as populações locais.

O projeto ficou a cargo do engenheiro italiano Filipe Terzi, uma das figuras mais influentes da arquitetura militar renascentista. Inspirado no estilo italiano trace italienne, Terzi concebeu uma fortificação robusta e moderna, adaptada às novas exigências da guerra de artilharia.

Entre baluartes e azulejos: uma arquitetura singular

A arquitetura da fortaleza revela-se uma síntese harmoniosa entre funcionalidade militar e beleza estética. A sua planta poligonal irregular molda-se ao relevo do terreno, enquanto os baluartes e revelins garantem defesa eficaz em múltiplas direções. As espessas muralhas foram projetadas para resistir a ataques de artilharia, e os caminhos de ronda e guaritas permitiam vigilância constante.

No interior, destaca-se a Capela de São Filipe, um tesouro escondido cujos azulejos azuis e brancos do século XVIII narram cenas religiosas e motivos decorativos. Um contraste delicado entre a austeridade militar e o requinte artístico.

De fortaleza a palco cultural

Ao longo dos séculos, a Fortaleza de São Filipe conheceu diferentes vidas. Serviu como defesa costeira, ponto de vigilância, prisão militar e, mais recentemente, abraçou um papel cultural e turístico. Após cuidadosos processos de restauro, foi classificada como monumento nacional e abriu as suas portas ao público.

Hoje, a fortaleza é palco de exposições, eventos culturais e recriações históricas, proporcionando aos visitantes uma viagem no tempo. As suas muralhas oferecem uma vista panorâmica deslumbrante sobre a cidade de Setúbal, a baía do Sado e a serra da Arrábida — um convite irresistível tanto para amantes de história como para apreciadores de paisagens.

Durante alguns anos, funcionou também como pousada, oferecendo uma experiência única de alojamento num cenário histórico. Além disso, visitas guiadas e painéis informativos ajudam a contextualizar a relevância desta fortificação no passado português.

Um património vivo

Mais do que uma relíquia militar, a Fortaleza de São Filipe é um espaço de memória e identidade para Setúbal. Integrada no património arquitetónico e cultural da região, continua a ser um centro vibrante de cultura, acolhendo concertos, exposições de arte e outras manifestações culturais que aproximam o passado do presente.

A sentinela de pedra que outrora defendeu Setúbal permanece viva — agora como guardiã da história e da cultura que moldaram a cidade.

Por Albino Monteiro