Cromeleque dos Almendres

Cromeleque dos Almendres, 

O maior recinto megalítico da Península Ibérica, continua a fascinar visitantes em Évora

Às portas de Évora, na freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, um lugar parece resistir ao passar implacável dos séculos. No coração da Herdade dos Almendres ergue-se um dos mais impressionantes monumentos pré-históricos da Europa: o Cromeleque dos Almendres, um enigmático conjunto de monólitos que continua a desafiar o tempo e a alimentar a imaginação de quem o visita.

Com cerca de sete mil anos de história, este recinto megalítico é anterior até ao icónico Stonehenge, no Reino Unido. Aqui, no suave ondular das colinas alentejanas, o homem neolítico deixou um testemunho monumental do seu culto à fertilidade, da sua ligação à terra e, talvez, das suas primeiras tentativas de compreender o cosmos.

Uma obra de três milénios

Construído entre o final do 6.º e o 3.º milénio a.C., o Cromeleque dos Almendres foi erguido em três fases distintas. No Neolítico Antigo nasceram três círculos concêntricos de monólitos ovóides; durante o Neolítico Médio, surgiu um segundo recinto com duas elipses irregulares; e já no Neolítico Final, ambos os conjuntos foram modificados até atingirem a configuração que hoje se pode visitar.

Do total original de mais de cem monólitos — blocos de granito dispostos em formas circulares ou elípticas — sobrevivem 95 pedras, muitas ainda de pé e em notável estado de conservação. Predominam as formas ovóides, mas também há exemplares de clara simbologia fálica. Um deles, o Menir dos Almendres, ergue-se isolado, alinhando-se com o nascer do sol no solstício de verão — indício de uma possível função astronómica.

Fertilidade e culto pastoral

A função exata do Cromeleque dos Almendres permanece um mistério. Contudo, as teorias mais aceites apontam para uma forte ligação às práticas agrícolas e pastorícias das primeiras comunidades sedentárias da Península Ibérica. O historiador José Hermano Saraiva defendia que o culto da fertilidade da terra, simbolizado por falos de pedra, estava intimamente ligado à sobrevivência destas populações.

Nas superfícies dos menires são visíveis gravuras em relevo que evocam bastões de pastor, denominadas báculos, além de linhas onduladas, círculos e covinhas, elementos que reforçam a ideia de um santuário ligado aos ciclos naturais e à fertilidade. Todos os menires estão atualmente numerados para facilitar a interpretação arqueológica.

Do esquecimento ao reconhecimento

O Cromeleque dos Almendres permaneceu desconhecido da comunidade científica até 1964, quando o geólogo Henrique Leonor Pina o identificou durante os trabalhos da Carta Geológica de Portugal. Desde então, o monumento tem ganho crescente relevância no panorama arqueológico europeu.

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1974, foi elevado a Monumento Nacional a 29 de janeiro de 2015. Atualmente, integra o Circuito Megalítico de Évora e do Alentejo, recebendo milhares de visitantes todos os anos.

Uma viagem no tempo

Envolto numa aura de misticismo e serenidade, o Cromeleque dos Almendres é mais do que um sítio arqueológico — é uma autêntica máquina do tempo. Caminhar entre os seus menires é embarcar numa viagem às origens da civilização europeia, num reencontro com a natureza e a espiritualidade de um passado remoto.

Quer a dois ou em família, um passeio pela Herdade dos Almendres é uma oportunidade única de sentir o pulsar de uma História que o próprio tempo parece ter decidido preservar intacta.

Por Albino Monteiro



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