Aqueduto da Água de Prata: A Arte e a História de um Monumento que Alimenta Évora há Séculos

 

Aqueduto da Água de Prata: A Arte e a História de um Monumento que Alimenta Évora há Séculos

Inaugurado a 28 de março de 1537, o Aqueduto da Água de Prata é muito mais do que uma infraestrutura de abastecimento de água: é um símbolo da grandiosidade arquitetónica e urbanística de Évora no século XVI. Com um traçado que se estende por cerca de 18 quilómetros, desde a Herdade do Divor até ao coração da cidade, esta obra monumental foi erguida em apenas seis anos sob a direção de Francisco de Arruda, o arquiteto régio conhecido também pela Torre de Belém.

Assente, muito provavelmente, sobre vestígios de um antigo aqueduto romano, esta construção civil rapidamente ganhou um papel de destaque na paisagem eborense, não só pela sua função prática, mas também pelo seu valor artístico. Um dos exemplos mais notáveis dessa conjugação de arte e engenharia foi o antigo Fecho Real do Aqueduto, situado junto à Igreja de São Francisco até 1873. O pórtico renascentista, composto por um torreão octogonal decorado com meias colunas toscanas e nichos adornados com vieiras, culminava num elegante lanternim — uma obra que marcava com imponência a entrada da água na cidade.

O aqueduto terminava na Praça do Giraldo, onde outrora se erguiam uma fonte adornada por leões de mármore e um arco de triunfo romano. Ambos foram demolidos durante a remodelação da praça promovida por D. Henrique, sendo a fonte substituída pela atual que ali se encontra.

Outro ponto de interesse na trajetória do aqueduto é a Caixa de Água da Rua Nova de Santiago. Erguida por Francisco de Arruda no ponto onde a antiga cerca medieval foi cortada, esta estrutura de planta quadrangular, sustentada por doze colunas toscanas e um amplo entablamento, destaca-se pelo seu carácter artístico, contrastando com outras secções do aqueduto onde a funcionalidade prevaleceu sobre a ornamentação.

Ao longo dos séculos, o Aqueduto da Água de Prata foi alvo de várias alterações, entre ampliações, demolições e integrações de novas estruturas. De especial relevo são os diversos chafarizes e fontes erguidos ao longo do seu percurso citadino. Destaca-se a Fonte do Chão das Covas, datada de 1701, e o Chafariz das Portas de Moura, uma obra remanescente da renovação urbana do século XVI patrocinada pelo cardeal D. Henrique. Ainda desse século, outros dois chafarizes foram construídos: um no Largo da Porta Nova — com influências evidentes do arquiteto Afonso Álvares — e outro no antigo Rossio de São Brás, inserido já numa campanha filipina que contemplou também a edificação de uma vasta alameda.

Parcialmente restaurado no século XVII, na sequência das guerras da Restauração, o aqueduto foi alvo de sucessivas intervenções de beneficiação nos séculos XIX e XX. No entanto, apesar destas obras de conservação, a estrutura manteve-se fiel à sua fisionomia original, perpetuando a herança de um dos mais imponentes legados da engenharia e arte renascentista em Portugal.

 Por Albino Monteiro


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